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Transparência e opacidade

“Transparência”, “transparente” e todas as outras variações são palavras cujo significado foi surrado a tal ponto que já estão quase pra além de qualquer possibilidade de reconhecimento.

Iran do Espírito Santo "Copo d água", 2006-2007.

Iran do Espírito Santo "Copo d'água", 2006-2007.

Tomemos um exemplo, no livro “Canvases and Careers Today: Criticism and Its Markets“, o artista londrino Merlin Carpenter escreve transtornado:

“Na arte contemporânea a transparência é como um manto cobrindo os segredos, não funciona. Do brilho escondido dos ricos às rotineiras declarações auto-críticas dos artistas ou do museu; os agrupamentos do poder fazem tudo ser transparente, exceto suas próprias relações. Por exemplo Liam Gillick, uma figura dos anos noventa que prefigurou alguns dos problemas discutidos aqui. Suas estruturas de alumínio e acrílico incorporam noções de espaço discursivo e negociação democrática, no entanto elas são mostradas em galerias e instituições cuja direção ele influencia por meio de amizades de longa data com curadores. Essas sinergias não são transparentes, mas invisíveis.”

O que é bastante curioso na passagem (fora o conteúdo em si, que inclusive poderia render muitos outros textos) é a ideologia interiorizada na palavra “transparente” em seu uso figurado. O próprio autor ajuda a expor e se coloca nessa ideologia, na contradição de dizer que algo transparente deveria ser visível — afinal, é o próprio Carpenter quem reclama que algo é chamado de transparente enquanto, na realidade lhe parece ser invisível — aparentemente sem perceber que “transparente” e “invisível” são quase a mesma coisa. O que é transparente pode tornar visível o seu interior, ou o que quer que esteja por trás, mas certamente não é visível em si. Ora, não é óbvio que algo que é transparente é também, em alguma medida, invisível (basta pensar no vidro ou na água)?

A ideologia da transparência é a promessa da visibilidade que, quando analisada com um pouco de cuidado desfaz-se a olhos vistos. Fala-se muito em ações transparentes, em gestões transparentes, em instituições transparentes, em governabilidade transparente e assim por diante: mas se forem realmente transparentes obviamente não poderão ser vistas. Quantas pessoas já não bateram a testa em portas e paredes de vidro? Onde estão as ações, instituições, gestões e governos opacos? Sumiram, ficaram todos transparentes?

Klaus Weber "Public Fountain LSD Hall", 2003.

Klaus Weber "Public Fountain LSD Hall", 2003.

Para uma análise bastante aprofundada sobre a transparência (e seu papel ideológico) na arquitetura, ver:

GRAHAM, Dan. “Essay on Video, Architecture and Television”, 1979.
Publicado originalmente em “Video/Architecture/Television: Writings on Video and Video Works 1970-78” e reimpresso no “Two-Way Mirror Power, Selected Writings by Dan Graham on His Art” e, em parte, em “Dan Graham” da série Contemporary Artists da Phaidon. Há também uma pequena porção disponível online.

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