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Posts de autoria de Roberto Winter

Todas as coisas merecem seus nomes próprios?

“Sim, esse bosque se parece com todos os outros pois de outro modo não se chamaria bosque, mas teria um nome próprio; ao mesmo tempo, sua realidade é única e mereceria ter de verdade um nome próprio. Todos merecem (merecemos) um nome próprio. Ninguém o terá, ninguém o teve. Esta é nossa verdaderia condenação, a nossa e a do mundo. E nisso consiste o que chamam os cristãos de estado de “natureza caída”. O paraíso está regido por uma gramática ontológica: as coisas e os seres são seus nomes e cada nome é próprio. O bosque não é único posto que tem um nome comum (é natureza caída), mas é único posto que nenhum nome é verdadeiramente seu (é natureza inocente). Esta contradição desafia o cristianismo e estraçalha a sua lógica.”

“El mono gramático”, Octavio Paz, 1978, Ed. Galaxia Gutenberg, p92 (tradução livre do castelhano)

Há algo de muito cristão no que se escreve por aí: por que é que tantos textos se preocupam em definir o significado de alguns termos — em tentativas de precisá-los e limitá-los para talvez recuperar sua natureza caída —, ao invés de simplesmente empregá-los e deixar que sejam empregados?

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Determinar e definir

Na matemática a diferença entre ‘definir’ e ‘determinar’ é bastante marcada e vou me permitir usar um exemplo para esclarecer o que quero dizer. Na maneira que entendo o significado da palavra “determinar” ela está mais conectada com o símbolo ‘=’, ou seja, quando dizemos que

x-1=1

e então

x=2

estamos determinando o valor de ‘x’ e dizendo que ele é ’2′.

Por outro lado, há um outro símbolo (talvez menos conhecido) que é o ‘≡’, que é o da definição. Assim, quando escrevemos que “10-1≡1″ estamos definido como o operador ‘-’ atua sobre os símbolos ’1′ e ’10′ (que já não são mais o ’1′ e o ’10′ do senso comum, ou seja, da matemática decimal). Nesse exemplo definimos uma outra matemática (que não a matemática decimal). O que é interessante notar é que no exemplo anterior, com o “=”, já havíamos pressuposto que a matemática que o regeria permitia fazer

x-1=1
x-1(+1)=1(+1)
com -1(+1)=0 e 1(+1)=2
x=2

No entanto, se naquele caso valesse que “10-1≡1″, poderíamos dizer que “x=10″.

A grande diferença entre ‘definir’ e ‘determinar’ então é que a primeira palavra é, digamos, mais autoritária, necessariamente excludente. Mesmo assim, a segunda é necessariamente incompleta (‘x=2′ somente porque assumirmos implicitamente que “2-1≡1″).

Por exemplo, se definirmos que arte é tudo o que é pintura, excluiremos todos os outros gêneros de arte da definição e ela necessariamente se fragiliza como definição, torna-se facilmente descartável (sabemos que há muito mais do que a pintura na arte). Num outro exemplo, seguindo o paralelo, se determinarmos que a arte inclui a pintura, torna-se uma determinação demasiado genérica e também incompleta, não chega a ser facilmente descartável, mas ainda é frágil.

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“Cantatrix Sopranica L.”

Capa do livro "Cantatrix Sopranica L.", edição da inglesa AtlasPress

Capa do livro "Cantatrix Sopranica L.", edição da inglesa AtlasPress

Segundo a introdução do livro, Georges Perec “sempre foi fascinado pela possibilidade de empregar linguagens não-ficionais para propósitos inteiramente travessos e este livro coleta diferentes textos nos quais ele usa a terminologia inexpressiva da sociologia, entomologia e da linguística para alcançar efeitos que são especificamente desenhadas para evitar”. Ao fazer um uso extremamente inteligente e informado desse tipo de escrita, Perec demonstra na prática quão interiorizada e potente ela é nos meios especializados.

Leia um dos ‘artigos’ do livro na íntegra: “Experimental demonstration of the tomatotopic organization in the Soprano (Cantatrix sopranica L.)” (em inglês).

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“O livro das citações”

O livro das citações“, de Eduardo Gianetti, não é, como o nome pode parecer implicar, uma reunião enciclopédica de citações para serem decoradas como máximas ou usadas em momentos oportunos. Uma rápida folheada no livro pode contradizer isso: o livro é composto apenas por citações, uma após a outra, sem nenhuma linha sequer escrita pelo autor/organizador. Mesmo a organização das citações pode deixar dúvidas, mas as seções como “Da inutilidade dos prefácios”, “A sedução das palavras”, “Contra o excesso de leitura”, “Com o saber cresce a dúvida” e assim por diante não são compêndios organizados para serem explicativos desses temas, não são nem guarda-chuvas nem tentativas taxonômicas de conhecimento apropriado.

O grande mérito do livro é justamente o que está entre as citações. É uma espécie de fio narrativo invisível que articula não só as citações, mas também as seções e os capítulos do livro entre si. E por isso mesmo que não é recomendável a leitura de uma ou outra citação separada das outras, ou de uma só seção separada do resto do livro; algo que seria, ainda que não pareça, quase tão sem propósito quanto ler apenas um capítulo de um romance.

Talvez daí ele se chamar “Livro das citações” e não “Enciclopédia” ou “Dicionário”: é realmente um livro, tudo bem que nem tanto um romance, mas quase um ensaio. Mas de modo nenhum é um ensaio raso, simplificação ou resumo de outros; pelo contrário, é denso e complexo; um discurso não linear, intricado, mas não por isso insondável.

Em última análise lê-se um livro sobre contexto e não sobre texto. Isto é, não é sobre cada uma das citações em si, mas sobre como aquelas citações, cuidadosamente selecionadas, retiradas de seu contexto original e colocadas uma após a outra são capazes de criar algo que talvez nem esteja ou estivesse em nenhuma delas. Ou, como também se mostra nos dois primeiros capítulos, a impossibilidade de fazê-lo.

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Facebook, “Curtir” e uma lógica da crítica

Entendo que a maioria das pessoas que lerá este texto já usou o Facebook. Mesmo assim, me parece útil rever qual é uma das pedras fundamentais sobre a qual todo aquele sistema funciona: o botão “Curtir” (em inglês “Like”). Sempre que um usuário acessa qualquer informação no sistema (comentário, link, foto, vídeo, etc.) lhe é dada a possibilidade de “gostar” do que vê com apenas um clique.

Uma aparição do botão "Curtir" ao lado do "Comentar" aparece em parte de uma captura de tela do Facebook

Uma aparição do botão "Curtir" ao lado do "Comentar" em parte de uma captura de tela do Facebook

Por que essa funcionalidade é fundamental? O sistema ‘entende’ — ou melhor, processa, computa — os “gostares” das pessoas e quanto mais pessoas gostam de determinada coisa, mais essa coisa é promovida, mais ela é re-distribuída, mostrada aos outros usuários, disseminada (e, não raro, mais ela é ‘gostada’ pelos outros usuários, ganhando ainda mais força e distribuição). É uma cadeia simples de popularidade, que não por isso deixa de manter os usuários interessados no site e dispostos a exibirem seus gostos uns aos outros. É claro que o sistema do site também pode computar a quantidade de comentários atrelados a cada informação, mas certamente não compreende ou avalia o conteúdo de cada comentário, o que só nos pode levar a crer que um “gostar” ou um comentário servem, quando muito, igualmente para avaliar quantitativamente uma informação e promovê-la na cadeia de re-distribuição.

Numa entrevista concedida à Brian Dillon, publicada na revista Frieze, Boris Groys explica que “o código da crítica contemporânea não é mais ou menos” e sim “é um código digital: zero ou um, mencionar ou não mencionar”, o que configura o que Dillon chama de “política da menção”. Groys explica que não se reage mais ao conteúdo de uma crítica, mas sim ao “quê” ou “quem” ela menciona; ou seja, uma crítica negativa não tem valor como tal, já que é entendida como crítica positiva sobre quem quer que ela mencione (pelo simples fato de fazê-lo).

Já há algum tempo existe um “movimento” dentro do Facebook organizado por usuários que acham o “Curtir” insuficiente, o que eles exigem: o “Não curtir”. À luz do comentário de Groys, torna-se claro o despropósito de uma funcionalidade como essa. Analisá-la com cuidado provê um fantástico exemplo da “política da menção” e a sua importância na configuração dos modos de crítica hoje.

Imaginemos um exemplo: um usuário compartilha informações sobre uma determinada “tragédia” (ignoremos que ele já internalizou a abordagem midiática do evento). Hoje, os outros usuários tem a opção de ‘curtir’ isso. Mas o que não está claro pelas regras do sistema — e certamente causa grande desconforto nos ativistas a favor do “Não curtir” — é se clicar no “Curtir” poderá significar dizer que esse outro usuário gostou da catástrofe em si. Ou se significará que ele gostou que a informação foi compartilhada. Ou ainda se simplesmente significará que ele gostou de ver aquilo ali. Ou se ele gostou… enfim, não ficará claro exatamente o quê ele “curtiu”. No mesmo exemplo, supondo que existisse o botão “Não curtir”, facilmente chegaríamos aos mesmos problemas. Mais ainda, poderíamos considerar como o sistema do Facebook poderia lidar com uma análise quantitativa dos “Não curtir”: ele deveria restringir a promoção daquela informação? Ou deveria promovê-la como faz com aquelas que as pessoas “Curtam”? Ou qual outra possibilidade teria? É curioso que para os casos onde um “Não curtir” parece fazer sentido, ele deixa de fazer sentido exatamente por gerar popularidade (e talvez fazê-lo ‘indevidamente’).

Mais um complicador é que não podemos ignorar que também gosta-se daquilo que não se gosta. O tema do exemplo anterior não foi escolhido por acaso. As “tragédias” midiáticas também exemplificam a lógica do “gostar” que opera — certamente (e para o conforto geral) de modo não-explícito — fora do Facebook: afinal, qual dono de jornal, revista ou qualquer meio de comunicação que não sabe que nada melhor que uma enchente, terremoto ou polêmica para ganhar mais dinheiro?

Já houve tempo em que a lógica da crítica negativa operava para levar à superação do objeto sendo criticado. Negava-se algo — geralmente em favor de alguma outra coisa — para que, por exemplo, o evento criticado não voltasse a ocorrer. Mas numa crítica negativa o que se nega é aquilo sobre o que se fala, isto é, o que se nega é o que aparece. Ora, se a recepção for regida pela popularidade isso não leva à superação, mas contraditoriamente à afirmação do que se critica (do que se menciona). Sob o mando da popularidade rapidamente se percebe que a fama é popular sinônimo de glória, visibilidade, reconhecimento, poder, sobrevivência e, claro, (em resumo?) dinheiro. Assim, a política da menção é uma radicalização da regência da popularidade, uma internalização de sua consciência perversa: tendo como dado que sobre as coisas populares não existe reflexão e sim absorção, só se pode entender que a única forma efetiva de crítica negativa, de superação frente à possível falta de opções, é relegar sumariamente o que se criticaria negativamente ao esquecimento (simplesmente não mencionar), evitando assim o seu (re)conhecimento.

Em última análise, no entendimento binário, o próprio “não gostar” já é “1″ bem como “gostar”; a única possibilidade de “0″ é não expressar nenhuma opinião a respeito, não clicar em nada. O que por um lado pode ser bastante limitante, especialmente dentro das opções dadas por sistemas como o do Facebook onde percebemos com facilidade o imenso vazio especulativo no qual somos jogados, levados a operar dentro de estratagemas classificatórios de máquinas absolutamente superficiais programadas para copiar o modo como nós mesmos operamos. Mas por outro lado é o que nos permite entender claramente que “gostar” não é — e talvez nunca tenha sido — um critério crítico suficiente. Esclarece que talvez devêssemos nos preocupar menos com se alguém gosta de algo e começar nos preocupando mais em entender e saber porque alguém gosta (ou não!) de algo.

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Ideologias na privada

Slavoj Žižek fala sobre ideologia, uma tradução livre:

E então eu comecei a pensar nas privadas da América, França e Alemanha. Elas constituem um triângulo semiótico perfeitamente correlato ao de Lévi-Strauss, então também temos um triângulo de excremento.

Agora, as privadas alemãs são construídas de tal forma que os excrementos caem sobre uma superfície no fundo e só depois são levadas por uma abertura na frente. Desse modo você se confronta diretamente com o excremento — e pode ver se tem vermes, etc. Este é um ritual alemão. As privadas francesas tem o sistema oposto: o buraco é maior e no fundo, então os excrementos podem cair diretamente no buraco e desaparecer imediatamente. A variação americana é um correlativo do “cozido” de Lévi-Strauss, combinando os elementos: o excremento permanece, mas ele flutua na água.

Eu li alguns livros sobre o assunto e cheguei à conclusão que cada nação acredita que seu sistema faz mais sentido. Mas, claramente, um sistema complexo está em jogo aqui. E se eu puder continuar com esse exemplo nauseabundo: amigos de Viena me disseram que nos círculos de estudantes de vanguarda os cortes dos pelos púbicos era estritamente codificado. Há o triângulo, o modo hippie new-age, onde tudo cresce em profusão; o modo yuppie, onde apenas uma pequena faixa fica visível; e o estilo punk com os pelos púbicos raspados e com brincos no clítoris, etc.

Sempre me fascino pelas ideologias por trás disso. E aqui está a resposta correta para Lyotard e os que dizem: “o fim da ideologia, ponto final”. Sim, mas no momento em que você dá a descarga da privada, lá está sua ideologia.

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“Larica Total”

Série de televisão, criada e dirigida por Caito Marnier, veiculada pelo Canal Brasil desde 2008, visite o site oficial http://www.laricatotal.com.br/

Primeira temporada completa:

Segundo o site do programa “Larica Total é um programa sobre um cara que tenta fazer seu próprio programa de culinária chamado Larica Total. É uma sátira aos programas de culinária convencionais e a todas as idéias anteriores de se fazer um programa de televisão sobre isso.”

Programa de culinária explicado aos programas de culinária.

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Defenestrados

Em uma pequena paróquia no interior da Inglaterra, em 1973, trinta e sete pessoas morrem depois de caírem pelas janelas. Esse curto mockumentary, faux-documentary, ou simplesmente documentário falso sobre lavadores de janelas e estudantes de aeronáutica foi feito na casa de campo de Peter Greenaway depois que ele ouviu histórias sobre mortes suspeitas em casos de “defenestração” de prisioneiros políticos na África do Sul ocorridos durante o apartheid.

Um documentário explicado aos documentários.

Via

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“Language is not transparent”

“Language is not transparent” – giz sobre tinta sobre parede, instalação de Mel Bochner, 1970

“Language is not transparent” – giz sobre tinta sobre parede, instalação de Mel Bochner, 1970

A obra consiste na frase “A linguagem não é transparente” escrita com giz branco sobre uma porção de parede previamente pintada da cor preta. Ao comentar a obra, o artista Mel Bochner diz que “uma das minhas preocupações principais é trazer à tona a maneira na qual pensamos quando estamos pensando sobre arte. Isso necessita um foco sobre a linguagem. É a opacidade da nossa linguagem, e a maneira na qual ela predetermina nossa visão que me intriga.”

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Transparência e opacidade

“Transparência”, “transparente” e todas as outras variações são palavras cujo significado foi surrado a tal ponto que já estão quase pra além de qualquer possibilidade de reconhecimento.

Iran do Espírito Santo "Copo d água", 2006-2007.

Iran do Espírito Santo "Copo d'água", 2006-2007.

Tomemos um exemplo, no livro “Canvases and Careers Today: Criticism and Its Markets“, o artista londrino Merlin Carpenter escreve transtornado:

“Na arte contemporânea a transparência é como um manto cobrindo os segredos, não funciona. Do brilho escondido dos ricos às rotineiras declarações auto-críticas dos artistas ou do museu; os agrupamentos do poder fazem tudo ser transparente, exceto suas próprias relações. Por exemplo Liam Gillick, uma figura dos anos noventa que prefigurou alguns dos problemas discutidos aqui. Suas estruturas de alumínio e acrílico incorporam noções de espaço discursivo e negociação democrática, no entanto elas são mostradas em galerias e instituições cuja direção ele influencia por meio de amizades de longa data com curadores. Essas sinergias não são transparentes, mas invisíveis.”

O que é bastante curioso na passagem (fora o conteúdo em si, que inclusive poderia render muitos outros textos) é a ideologia interiorizada na palavra “transparente” em seu uso figurado. O próprio autor ajuda a expor e se coloca nessa ideologia, na contradição de dizer que algo transparente deveria ser visível — afinal, é o próprio Carpenter quem reclama que algo é chamado de transparente enquanto, na realidade lhe parece ser invisível — aparentemente sem perceber que “transparente” e “invisível” são quase a mesma coisa. O que é transparente pode tornar visível o seu interior, ou o que quer que esteja por trás, mas certamente não é visível em si. Ora, não é óbvio que algo que é transparente é também, em alguma medida, invisível (basta pensar no vidro ou na água)?

A ideologia da transparência é a promessa da visibilidade que, quando analisada com um pouco de cuidado desfaz-se a olhos vistos. Fala-se muito em ações transparentes, em gestões transparentes, em instituições transparentes, em governabilidade transparente e assim por diante: mas se forem realmente transparentes obviamente não poderão ser vistas. Quantas pessoas já não bateram a testa em portas e paredes de vidro? Onde estão as ações, instituições, gestões e governos opacos? Sumiram, ficaram todos transparentes?

Klaus Weber "Public Fountain LSD Hall", 2003.

Klaus Weber "Public Fountain LSD Hall", 2003.

Para uma análise bastante aprofundada sobre a transparência (e seu papel ideológico) na arquitetura, ver:

GRAHAM, Dan. “Essay on Video, Architecture and Television”, 1979.
Publicado originalmente em “Video/Architecture/Television: Writings on Video and Video Works 1970-78” e reimpresso no “Two-Way Mirror Power, Selected Writings by Dan Graham on His Art” e, em parte, em “Dan Graham” da série Contemporary Artists da Phaidon. Há também uma pequena porção disponível online.

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